O que a Cabalá e a Física Quântica têm a dizer uma a outra?
Uma viagem pela incerteza, pelo livre-arbítrio e pela consciência cósmica
Por muito tempo, ciência e religião foram tratadas como adversárias. Quem queria entender o mundo real ia para o laboratório; quem buscava sentido ia para a sinagoga, a igreja ou a mesquita. Essa separação parecia natural, afinal, a ciência fala de fatos mensuráveis, a religião fala de fé. Mas, nas últimas décadas, algo inesperado aconteceu. A própria ciência, ao aprofundar suas investigações sobre a natureza fundamental da realidade, começou a tropeçar em perguntas que antes eram exclusivas dos místicos. E, mais surpreendente ainda, algumas das respostas encontradas nos laboratórios soam estranhamente familiares a quem conhece a Cabalá.
Não se trata de forçar paralelos ou de dizer que "os cabalistas já sabiam de tudo". Trata-se de observar convergências autênticas entre dois sistemas de pensamento que partem de lugares muito diferentes: um da revelação e da tradição, outro da experimentação e da matemática, mas que, ao olhar para as camadas mais profundas da existência, descrevem um mundo notavelmente parecido.
Vamos percorrer três grandes temas que conectam a Cabalá e a física quântica: (i) a incerteza fundamental do universo, (ii) a estrutura holográfica e interconectada da realidade, e (iii) o enigma da consciência. No fim, veremos que essas ideias não são apenas curiosidades intelectuais. Elas nos ajudam a repensar perguntas antigas sobre livre-arbítrio, sobre o mal, sobre a unidade do mundo e sobre o nosso lugar nele.
1. A incerteza que veio para ficar
Tudo começa em 1927, quando o físico alemão Werner Heisenberg propôs uma ideia que até hoje soa perturbadora: não podemos saber tudo sobre uma partícula ao mesmo tempo. Quanto mais precisamente medimos a posição de uma partícula, menos sabemos sobre seu momento (sua velocidade e direção). E vice-versa. O nome disso é Princípio da Incerteza.
A primeira reação de muitos foi pensar: "Ah, isso é um problema técnico. Algum dia teremos instrumentos melhores e resolveremos isso." Mas não. Heisenberg mostrou que a imprecisão não é culpa do aparelho nem do cientista. É uma propriedade da própria natureza. O mundo, no seu nível mais fundamental, é incerto por princípio. A realidade não é uma máquina de relojoaria perfeita, previsível até o infinito. Ela guarda um grau de indeterminação que não pode ser eliminado.
Pouco depois, veio outra reviravolta. O físico Erwin Schrödinger formulou uma equação que descreve as partículas como "ondas de probabilidade". Antes de ser medida, uma partícula não tem uma posição definida. Ela existe como uma nuvem de possibilidades. O famoso experimento da dupla fenda mostrou isso na prática: a luz se comporta como onda ou como partícula a depender de algo inusitado — a observação. Quando alguém "olha" para ver por onde a partícula passa, o comportamento muda. A consciência do observador parece "escolher" qual realidade se manifesta.
E a coisa ficou ainda mais estranha em 1982, quando o físico Alain Aspect e sua equipe na Universidade de Paris confirmaram experimentalmente o chamado entrelaçamento quântico. Duas partículas que interagiram no passado permanecem conectadas de tal forma que, quando medimos uma propriedade de uma delas, a outra instantaneamente assume um estado correspondente — não importa a distância que as separa. Podem estar em lados opostos do universo. A conexão é instantânea. Einstein chamou isso de "ação fantasmagórica à distância" e nunca se sentiu confortável com a ideia. Mas os experimentos provaram que ele estava errado: o universo é, de fato, não-local e profundamente interconectado.
Agora, respire fundo e vamos para a Cabala.
Nos textos místicos judaicos, especialmente no Zohar (um dos livros centrais da Cabala, que data de pelo menos o século XIII) e nos escritos do grande sábado do século XVIII, Rabi Moshe Chaim Luzzatto (conhecido como Ramchal), existe um conceito chamado Reisha D'lo Ityadah — a "Cabeça Incognoscível". É a fonte primordial de toda a realidade. O que dizem os cabalistas sobre ela? Que dela emana "toda incerteza". Que não podemos conhecê-la — não por falta de inteligência ou de ferramentas, mas por sua própria natureza. Ela é, por definição, incognoscível. Que nela todas as possibilidades de realidade existem latentes, até que algo as torne concretas.
Leia de novo: todas as possibilidades de realidade existem latentes, até que algo as torne concretas. Isso não é exatamente a função de onda de Schrödinger? Antes da medição, a partícula está em todos os lugares possíveis ao mesmo tempo. A medição "colapsa" essa nuvem de possibilidades em uma única realidade observada.
O Ramchal escreveu: "Num momento parece que (o resultado determinado pela RADLA) é uma coisa, noutro momento parece outra... E se olharmos mais de perto, parece que não é assim, mas se transforma em outra coisa." E ainda: "Essas incertezas (da RADLA) são diferentes das incertezas do mundo familiar. Neste último, podemos duvidar se uma coisa existe ou não; mas, na verdade, todas as coisas percebidas como 'incertas' estão presentes nela."
Os físicos quânticos dizem praticamente a mesma coisa. John Gribbin escreveu: "A incerteza é talvez a característica central da teoria quântica." Richard Feynman, ganhador do Nobel, afirmou: "É seguro dizer que ninguém entende a mecânica quântica." E Heisenberg mesmo disse: "Não podemos conhecer, como questão de princípio, o presente em todos os seus detalhes."
Pois bem. A Cabala e a física quântica convergem para a mesma conclusão: no cerne da realidade há um véu de incerteza que não pode ser rasgado. Não é um véu temporário, que será removido com mais conhecimento. É um véu estrutural, permanente, constitutivo.
E por que isso importa? Porque esse véu é o que garante o nosso livre-arbítrio.
Para a Cabala, se pudéssemos acessar diretamente a Vontade Divina — se soubéssemos, com certeza absoluta, o que D'us quer que aconteça — então nossas escolhas seriam uma mera encenação. Seríamos fantoches. Mas a RADLA embaralha essa informação. Ela cria uma zona de indeterminação entre a Mente Divina e a nossa consciência. Nós escolhemos sem saber ao certo o que D'us já "sabe" — e é justamente essa ignorância estrutural que torna nossa escolha autêntica.
A física quântica diz algo análogo. A natureza, em seu nível fundamental, impede a previsão absoluta. O futuro não está escrito em lugar nenhum. Há uma indeterminação genuína. Portanto, o espaço para a liberdade — seja ela humana ou de outro tipo — está nessa brecha. O universo não é um destino. É uma dança de possibilidades, e nós participamos da coreografia.
2. O universo como um holograma — e o que a Cabala sabia disso
Vamos agora ao segundo grande encontro entre a Cabala e a física quântica. O protagonista aqui é o físico David Bohm (1917-1992), uma das mentes mais originais do século XX. Albert Einstein o reconhecia como um de seus sucessores intelectuais. Mas Bohm seguiu um caminho incomum. Ele se afastou da interpretação padrão da mecânica quântica (a chamada Escola de Copenhague, liderada por Niels Bohr) porque se sentia desconfortável com o que considerava uma abordagem pobre em relação a duas questões essenciais: a causalidade e a interconexão universal.
Para Bohm, o universo não poderia ser uma coleção de partes separadas que interagem de maneira apenas local. Ele tinha a intuição — depois sustentada por sua matemática — de que a totalidade vem primeiro. As partes são derivações, não o fundamento.
Ele chamou essa totalidade indivisível de holomovimento. E propôs que aquilo que percebemos como o mundo cotidiano — pessoas, estrelas, cadeiras, pensamentos — é apenas uma superfície, uma ordem que ele chamou de explicada (ou explícita). Por baixo dela existe uma ordem implicada (ou implícita), uma realidade mais profunda, oculta, onde tudo está conectado e nada é verdadeiramente separado.
Imagine um oceano em movimento. As ondas que vemos na superfície são a ordem explicada. Mas a água inteira, com suas correntezas profundas e conexões invisíveis, é a ordem implicada. Cada onda aparentemente separada é, na verdade, uma expressão momentânea do oceano como um todo. Bohm diria o mesmo do universo: cada partícula, cada átomo, cada galáxia é uma onda na superfície de um oceano subjacente único.
Mais ainda: na ordem implicada, cada parte contém o todo. Bohm usou a analogia do holograma. Um holograma é uma fotografia especial gravada com lasers. Se você recorta um pedaço de uma fotografia comum, vê apenas aquela parte da imagem — um braço, um pedaço do céu. Mas se você recorta um pedaço de um holograma e o ilumina, a imagem inteira aparece de novo, em miniatura. Quanto mais você recorta, menores são as imagens, mas todas permanecem completas. O todo está contido em cada parte.
Bohm argumentava que o universo é assim. Cada elétron contém, de alguma forma, a informação de todo o cosmos. Cada momento presente carrega o passado distante e o futuro remoto. Cada pensamento contém, em princípio, a totalidade da consciência humana.
Pois bem. A Cabala descreve exatamente a mesma estrutura com outros nomes.
Vamos começar pelo princípio de Hitlabshut (que pode ser traduzido como "envolvimento", "revestimento" ou "encobrimento"). Ele ensina que cada nível da realidade está "vestido" dentro do nível imediatamente inferior. Como um telescópio que se recolhe: as partes superiores estão contidas nas inferiores. O que chamamos de "mundo espiritual" não é um lugar distante. Ele está "enclausurado" dentro do mundo físico — oculto, implicado. O que Bohm chama de ordem implicada é, para a Cabala, a Ohr Ein Sof (Luz Infinita de D'us) se manifestando através de camadas sucessivas de realidade.
Depois, temos o princípio de Hitkallelut (interinclusão). Isso é o holograma puro: o todo está em cada parte. Os textos cabalísticos afirmam: "Tudo o que está na totalidade está também na particularidade" e "toda a condução divina está em cada parte". Na prática, isso significa que cada Sefirá (cada um dos dez atributos ou forças divinas que estruturam a criação) contém todas as outras Sefirot em miniatura. Cada mundo espiritual contém todos os outros mundos. Cada alma contém todas as almas. Cada coisa contém todas as coisas.
E, finalmente, o princípio de Hitkashrut (interpenetração ou interconectividade) vai além. Ele estabelece que partes análogas — por exemplo, a Sefirá de Chesed (Bondade) que existe em cada nível da realidade — estão permanentemente conectadas entre si. É como se todos os "pontos de bondade" do universo formassem uma rede única, capaz de se comunicar instantaneamente.
Isso é exatamente o entrelaçamento quântico de Bohm, mas aplicado a todas as escalas e a todos os aspectos da existência. Quando duas partículas entrelaçadas se afetam instantaneamente a qualquer distância, elas estão manifestando Hitkashrut. Quando um pensamento seu parece "viajar" até outra pessoa, ou quando intuições inexplicáveis acontecem, a Cabala diria que é Hitkashrut em ação.
Bohm, é claro, não usava esses termos. Mas ele sabia que estava pisando em um território que os místicos já haviam explorado. Em uma entrevista, perguntaram a ele qual era a diferença entre sua física e o que os místicos vêm dizendo há milênios. A resposta de Bohm foi surpreendentemente direta: "Não sei se há necessariamente alguma diferença."
É importante notar que Bohm teve contato com o chassidismo em sua casa (sua família era de origem judaica da região de Munkács) e também teve longas conversas com o pensador indiano Jiddu Krishnamurti. Mas ele não estava simplesmente "importando" misticismo para a física. Ele chegou a essas conclusões por meio de equações e experimentos. A convergência veio por conta própria. E isso é o mais fascinante: duas rotas independentes — uma empírica, outra revelada — levaram a um destino comum.
3. A consciência que está em tudo
Chegamos ao ponto mais fascinante e, para muitos, mais controverso. Durante séculos, a ciência mainstream tratou a consciência como um produto do cérebro — uma espécie de "secreção" de neurônios, uma ilusão gerada por processos químicos e elétricos. O filósofo David Chalmers chamou isso de "problema difícil da consciência": como explicar que matéria física (o cérebro) produza experiências subjetivas (a sensação do azul do céu, o gosto do morango, a dor de uma perda)? Muitos cientistas simplesmente ignoraram o problema, tratando a consciência como um epifenômeno sem consequências causais.
Mas a física quântica colocou uma pulga atrás da orelha dos pesquisadores. Se o observador influencia a realidade — se o ato de "olhar" colapsa a função de onda e seleciona um resultado entre vários possíveis — então a consciência não pode ser um mero espectador passivo. Ela tem um papel ativo na construção do mundo. Isso não significa que a consciência crie a realidade do nada. Mas significa que ela participa do processo de seleção. E isso a eleva a um status ontológico muito mais relevante do que a ciência materialista estava disposta a conceder.
A Cabala, por sua vez, sempre ensinou o que hoje se chama de panpsiquismo: a ideia de que a consciência está presente em todas as coisas, em diferentes graus e modalidades. Não significa que uma pedra pense como uma pessoa. Longe disso. Mas significa que a pedra tem uma forma mínima, rudimentar, de "sentir" sua existência — de ser algo, e não nada.
A tradição cabalística classifica a criação em quatro grandes reinos, cada um com um nível diferente de consciência. Os inanimados (Domem) têm uma consciência que informa sua forma e sua substância — é o que permite que um cristal de quartzo "saiba" como crescer naquela estrutura específica. As plantas (Tzomeach) têm uma consciência que lhes permite crescer, absorver nutrientes, reproduzir-se — algo muito mais rico do que a mera inércia de uma pedra. Os animais (Chai) têm senciência: sentimentos, dores, prazeres, medos, desejos. E os humanos (Medaber, que significa "falante") têm autoconsciência, linguagem, razão, criatividade, livre-arbítrio e moralidade.
Tudo isso, segundo a Cabala, se organiza em uma estrutura de dez Sefirot (forças ou atributos espirituais) que se repetem em cada nível da criação, como um fractal. As três primeiras Sefirot — Keter (Coroa/Vontade Divina), Chochmah (Sabedoria) e Binah (Entendimento) — constituem a "consciência" ou a "mente" (Mochin) de cada ser. As sete restantes — Chesed (Bondade), Gevurah (Força/Julgamento), Tiferet (Beleza/Compromisso), Netzach (Vitória/Eternidade), Hod (Esplendor/Gratidão), Yesod (Fundamento) e Malchut (Realeza/Receptividade) — constituem o "corpo" ou a dimensão manifesta.
Agora, aqui está um ponto absolutamente central para entender a consciência na Cabala: durante o processo de criação descrito pelo grande cabalista do século XVI, Isaac Luria (o Arizal), ocorreu um evento cósmico chamado Shevirat HaKelim — a Quebra dos Vasos. As Sefirot inferiores (as sete "corporais") não conseguiram conter a intensidade da luz divina e se romperam. Seus fragmentos caíram para níveis inferiores da realidade, onde se tornaram as "cascas" (kelipot) que dão origem à opacidade, à separação e ao mal. No entanto, as Sefirot superiores — as três "conscientes" — não se quebraram. Elas permaneceram inteiras e unificadas.
Qual é a consequência disso? Que, por mais fragmentado e caótico que o mundo pareça, por mais que vivamos em uma realidade de aparente separação e conflito, a consciência — em todos os seus níveis, da pedra ao anjo — é sempre uma, indivisível, inteira. É por isso que sua mente não é um monte de pedaços desconectados, mas uma experiência unificada. E é por isso que, em princípio, é possível que uma pessoa se conecte profundamente com outra, ou até com o todo da criação, através da consciência.
A física quântica, por meio do entrelaçamento e da não-localidade, aponta na mesma direção. Se duas partículas entrelaçadas se comunicam instantaneamente através de qualquer distância, isso sugere que a separação espacial é, de alguma forma, uma ilusão da ordem explicada. Na ordem implicada, tudo está interconectado. E se a consciência tem um correlato quântico — como muitos físicos especulam — então ela também participa dessa interconexão.
A Cabala vai além e descreve um fenômeno que podemos chamar de consciência relativística. Assim como o espaço e o tempo são relativos à velocidade do observador, o nível de consciência também é relativo à posição do observador na hierarquia da criação. O que é "mente" em um nível torna-se "matéria" no nível imediatamente superior. Por exemplo: a "consciência" de uma árvore (suas três Sefirot superiores) é "inconsciente" ou "corporal" do ponto de vista de um animal que a absorve em sua alimentação. O animal revela uma nova consciência (a senciência) que estava latente na planta.
Bohm também falava disso. Ele escreveu que "cada lado mental (de cada dipolo físico-mental) torna-se um lado físico à medida que nos movemos na direção de maior sutileza". Em outras palavras, o que consideramos "matéria" em um nível é "consciência" em um nível mais profundo. A distinção entre mente e matéria é uma questão de perspectiva, não uma diferença ontológica absoluta.
Isso tem implicações profundas para perguntas como: a consciência sobrevive à morte do cérebro? A Cabala diria que sim, porque a consciência não é produzida pelo cérebro — ela é anterior a ele. O cérebro é um instrumento que revela consciência em um determinado nível, mas a consciência em si mesma é uma propriedade fundamental da realidade, como a massa ou a carga elétrica. A física quântica, ao mostrar a centralidade do observador, abre espaço para essa possibilidade, embora não a prove.
A Cabala também oferece uma explicação fascinante para fenômenos como intuição, telepatia e até profecia. Quando uma pessoa tem uma intuição que não pode ser explicada por seus sentidos ou raciocínio, pode ser que ela esteja acessando informações diretamente da ordem implicada — da teia de interconexão de Hitkashrut. Quando duas pessoas sentem uma forte empatia instantânea, podem estar "trocando" mini-versões de si mesmas, como descrevemos antes.
E a profecia, na tradição judaica, é um caso extremo de "desdobramento" (unfoldment): o profeta consegue, por um momento, romper a camada de incerteza da RADLA e acessar diretamente a Vontade Divina. Mas isso é raro e exige um preparo espiritual imenso. Para a maioria de nós, a incerteza permanece — e é isso que nos garante o livre-arbítrio.
4. O futuro da consciência e o Sétimo Milênio
O que tudo isso significa para o futuro da humanidade? A Cabala é clara: estamos caminhando para uma grande revelação. O Zohar, o texto central da mística judaica, profetiza que a Era Messiânica (o Sétimo Milênio) será precedida por um "derramamento" de sabedoria — tanto a sabedoria "superior" (a Cabala) quanto a sabedoria "inferior" (a ciência). As duas convergirão. O que estamos testemunhando agora, com os avanços da física quântica e da neurociência, pode ser o início dessa convergência.
A Cabala prevê que, na Era Messiânica, a consciência cósmica será revelada. Não que ela não exista agora — ela existe, mas está oculta, implicada. Será como se o véu da ordem explicada se tornasse translúcido. Veremos que todas as coisas estão conectadas. Sentiremos que cada pensamento nosso ressoa no todo. Compreenderemos que a separação é uma ilusão necessária para o livre-arbítrio, mas não a verdade última.
O profeta Zacarias escreveu: "Naquele dia, D'us será Um e Seu Nome será Um" (Zacarias 14:9). Os cabalistas interpretam isso não apenas como uma afirmação sobre D'us, mas como uma afirmação sobre a nossa percepção. Nós é que veremos a unidade. O Nome de D'us — que normalmente é percebido como múltiplo (atributos diferentes, aspectos diferentes) — será compreendido como único. Assim como o universo.
E note: essa unidade não anula a diversidade. Cada parte continua sendo ela mesma. Mas ela se vê como parte de um todo. É como as notas de uma sinfonia: cada nota é distinta, mas a beleza está na integração.
Hoje, alguns psicólogos e neurocientistas já começam a considerar seriamente a hipótese de que nossas mentes podem estar conectadas de maneira não-local. Experimentos de telepatia realizados em câmaras de privação sensorial — onde o ruído sensorial comum é reduzido ao mínimo — sugerem que informações podem sim ser trocadas entre pessoas sem nenhum canal físico conhecido. O psicólogo Adrian Nelson escreveu: "Se a consciência reflete um aspecto intrínseco de toda a realidade, isso nos convida a nos considerarmos como parte de um único sistema experiencial em evolução."
A física quântica já nos deu as ferramentas conceituais para pensar nisso: não-localidade, entrelaçamento, ordem implicada. A Cabala nos dá a linguagem antiga, poética, mas surpreendentemente precisa para descrever o mesmo território. Talvez, no fim das contas, a grande tarefa do nosso tempo seja integrar essas duas formas de saber — não para que uma domine a outra, mas para que possamos enxergar a realidade com uma visão mais completa.
5. O que isso muda na sua vida?
Depois de toda essa viagem pela física quântica e pela Cabala, você pode estar se perguntando: e daí? Como isso afeta o meu dia a dia? São perguntas justas.
Primeiro, essas ideias nos oferecem uma resposta para a angústia do determinismo. Se tudo já estivesse escrito, se o futuro fosse uma linha reta e imutável, nossa sensação de escolha seria uma ilusão cruel. Mas a incerteza fundamental do universo — o véu da RADLA — garante que o futuro não está completamente determinado. Há espaço para a novidade. Há espaço para a sua escolha fazer diferença. Isso não significa que qualquer coisa seja possível. Significa que, no âmbito do que é possível, você participa da criação.
Segundo, essas ideias nos ajudam a lidar com o sofrimento e com o mal. A Cabala não oferece uma resposta fácil — "D'us permite o mal para que o bem seja livre" — mas aprofunda a compreensão. O mal, as kelipot, são os fragmentos dos vasos quebrados. Eles não são um erro, mas parte do processo. A tarefa humana, o Tikkun Olam (reparo do mundo), é recolher essas faíscas de luz que caíram junto com os cacos. E isso se faz através de atos concretos: bondade, justiça, memória, resistência. A física quântica não fala de mal, mas fala de separação aparente. Talvez a violência e o egoísmo sejam formas extremas de esquecer a interconexão — de agir como se a ordem explicada fosse tudo o que existe.
Terceiro, essas ideias nos convidam a rever nossa relação com a natureza. Se até as pedras têm uma forma mínima de consciência, não estamos mais diante de um mundo inerte a ser explorado sem limites. Estamos diante de uma comunidade de seres, cada qual com seu grau de "sentir". Isso tem implicações éticas profundas para o meio ambiente, para o tratamento dos animais, para a maneira como produzimos e consumimos.
Quarto, essas ideias oferecem um antídoto à solidão. Se a consciência é uma só no fundo, então a solidão existencial — a sensação de ser um eu fechado, separado de tudo — é uma ilusão. Uma ilusão necessária, talvez, para que possamos exercer o livre-arbítrio e crescer espiritualmente. Mas ainda assim uma ilusão. Em momentos de conexão genuína — quando amamos, quando ajudamos, quando nos emocionamos com uma obra de arte ou com um pôr do sol — estamos tateando a orla dessa unidade esquecida.
Finalmente, essas ideias nos dão esperança. A Cabala profetiza que a unidade será revelada. A física quântica sugere que o universo, no fundo, é um. Não estamos caminhando para uma fragmentação maior, mas para uma integração. O caos aparente — guerras, crises, divisões políticas — pode ser as dores de parto de um novo nível de consciência. Não sabemos quando nem como. Mas sabemos que a seta aponta para cima.
Conclusão: duas linguagens, uma verdade
A Cabala e a física quântica são, reconhecidamente, sistemas muito diferentes. Um é uma tradição milenar baseada em revelação divina, hermenêutica textual e prática espiritual. O outro é uma disciplina científica baseada em experimentos, matemática e falseabilidade. Não se trata de dizer que são a mesma coisa.
Mas o fato de que ambos descrevem a realidade como incerta em seu núcleo, como holograficamente interconectada e como impregnada de consciência em todos os níveis — isso é, no mínimo, impressionante. Pode ser que estejamos diante de duas aproximações independentes de uma mesma verdade profunda. Pode ser que a mente humana, seja pelo caminho da fé ou pelo caminho da razão, encontre os mesmos limites e as mesmas maravilhas.
O Rebe de Lubavitch, Menachem Mendel Schneerson, argumentava que estamos vivendo o prenúncio da Era Messiânica justamente porque a sabedoria inferior (a ciência) e a sabedoria superior (a Torá) estão convergindo. Não por acaso, ele próprio estudou física com Erwin Schrödinger — um dos pais da mecânica quântica — na Universidade de Berlim. Ele sabia do que estava falando.
Seja qual for sua crença pessoal, uma coisa é certa: a jornada pela incerteza, pela interconexão e pela consciência é uma das mais fascinantes que o ser humano pode empreender. E, no final dela, talvez a gente descubra que as duas trilhas — a do laboratório e a da sinagoga — levam ao mesmo mirante.
Para saber mais:
Schipper, H. M. (2021). Kabbalistic Panpsychism — The Enigma of Consciousness in Jewish Mystical Thought. Winchester, UK: John Hunt Publishing.
O autor deste artigo, Dr. Chaim (Hyman) M. Schipper, é professor de neurologia na McGill University e pesquisador na interface entre ciência e misticismo judaico. Esta matéria é uma adaptação de sua série de três partes publicada originalmente no Chabad.org.