Invenção Contínua do Judaísmo: Cabalá

Prof. Dr. Moshe Idel é, sem dúvida, um dos maiores judeus da nossa geração. Várias gerações de pesquisadores e de pessoas interessadas no judaísmo cresceram sobre seus trabalhos, e ele se tornou uma verdadeira lenda no mundo acadêmico. Pesquisador sênior do Instituto Hartman, professor na Universidade Hebraica de Jerusalém e um dos maiores pesquisadores em Cabalá no mundo.
O judaísmo é uma religião que possui muitos componentes, os quais vão mudando de peso relativo ao longo do tempo, não apenas por causa das interações internas, mas também devido ao contato com diferentes ambientes externos. No período bíblico, o judaísmo era essencialmente a crença na eleição de Israel – não exatamente um monoteísmo filosófico, como às vezes se imagina, mas sim a ideia de um povo escolhido e de uma terra escolhida. No centro dessa estrutura estava o Templo, e três elites conviviam e disputavam influência: o sumo sacerdote, o rei e os profetas. As interações entre eles – as críticas dos profetas, o controle dos reis, o culto no Templo – definiam aquela fase inicial.
A respeito do judaísmo, em uma reportagem recente ele afirmou que é uma religião que possui muitos componentes, os quais vão mudando de peso relativo ao longo do tempo, não apenas por causa das interações internas, mas também devido ao contato com diferentes ambientes externos. No período bíblico, o judaísmo era essencialmente a crença na eleição de Israel, não exatamente um monoteísmo filosófico, como às vezes se imagina, mas sim a ideia de um povo escolhido e de uma terra escolhida. No centro dessa estrutura estava o Templo, e três elites conviviam e disputavam influência: o sumo sacerdote, o rei e os profetas. As interações entre eles, as críticas dos profetas, o controle dos reis, o culto no Templo, definiam aquela fase inicial.
Então, num segundo momento, o judaísmo muda de forma dramática. Não há mais profetas, não há mais reis, não há mais sumo sacerdote. Em seu lugar, surge uma nova elite: os sábios, os rabinos. Eles declaram enfaticamente que não existem mais profetas, uma afirmação muito clara, que qualquer um pode verificar. Não que eles não desejassem o Templo ou um rei messiânico no futuro, mas, na prática, a dinâmica agora é outra. Os líderes daquele período pegaram parte da herança cultural, as mitsvot (mandamentos) e o texto bíblico, e construíram um mundo inteiramente novo, baseado no Talmude e no Midrash, que não depende mais do rei, nem da terra, nem do Templo. Mesmo que esses valores continuem sendo importantes, a nova realidade é que o judaísmo rabínico se vê como continuador do mundo bíblico, mas sem a história, sem se preocupar obsessivamente com a história ou com a Terra de Israel. O Talmude Babilônico e toda a literatura haláchica subsequente são exemplos desse fenômeno.
Mas o judaísmo nunca se desenvolveu no vácuo. Idel destaca a importância das interações com outras culturas. Após o período bíblico, a interação mais importante foi com o mundo grego. E aí aparece uma figura fascinante: Filon de Alexandria. Ele apresenta uma posição totalmente diferente da dos rabinos, e os rabinos simplesmente o apagam. Não há uma única menção a Filon em toda a literatura rabínica. Um homem que escreveu imensamente e teve enorme influência no mundo cristão é completamente ignorado pelo judaísmo rabínico. Por quê? Porque Filon escreveu em grego e pensou em grego. Os rabinos certamente conheciam seus escritos, os manuscritos de Filon foram preservados, e não se pode dizer que eles não sabiam da existência deles, mas a linguagem filosófica abstrata, tomada de um mundo estrangeiro, simplesmente não se adequava ao ethos rabínico. Foi um processo de exclusão: durante mil e quinhentos anos, os judeus não souberam que Filon existira, enquanto todo o mundo cristão se construiu sobre ele.
Depois vieram outras interações. No final do primeiro milênio, em Bagdá, a teologia filosófica grega, agora em vestimenta cristã e muçulmana, começa a influenciar a elite judaica. Surgem figuras como Saadia Gaon, Ibn Gabirol e, acima de tudo, Maimônides (Rambam). É um judaísmo que incorpora importantes elementos gregos: a ênfase na espiritualidade divina, a centralidade do pensamento humano acima da simples ação prática. Inicia-se então uma interação fortíssima entre o mundo rabínico, que sempre colocara a Halachá no centro e o mundo teológico. Essa tensão perdura até hoje. E Idel lança uma tese ousada: os debates e polêmicas em torno de Maimônides, na sua opinião, deram origem ao surgimento da Cabalá. A Cabala seria uma reação, uma contra-resposta, que se utilizou de material muito mais antigo presente no judaísmo, como as tradições sobre anjos, magia e textos apocalípticos, mas que nunca estivera no centro. Ela criou uma alternativa mais simpática ao mundo midráshico e valorativo, oferecendo uma leitura simbólica de conceitos como terra, Israel e a Shechiná (a presença divina), interpretando-os como referentes a mundos superiores.
E o cristianismo? Onde fica o diálogo com o cristianismo nessa história? Idel observa que há diferentes escolas de pensamento. Alguns estudiosos, como o famoso André Orlov e Alexander Golitzin, defendem que o cristianismo e a mística cristã são, em grande parte, resultado da influência judaica, especialmente através dos textos apocalípticos e das tradições dos salões celestiais (Hekhalot). Eles escreveram dezenas de livros sobre isso, argumentando que a literatura apocalíptica judaica, preservada não apenas em grego e copta, mas também dentro do próprio judaísmo, influenciou decisivamente a formação do cristianismo. Idel discorda da visão de que essa literatura simplesmente desapareceu do judaísmo após a destruição do Segundo Templo. Ele cita a descoberta da Genizá do Cairo, onde se encontraram textos de Qumran, como o famoso Rolo de Cobre, o mais longo de todos, em contextos rabínicos plenos dos séculos XII e XIII. Os copistas eram rabinos conhecidos. Portanto, a imagem é muito mais complicada. A literatura caraíta também acusa os rabinos de possuir livros sobre anjos e magia que não aparecem abertamente na literatura rabínica normativa. Assim, o cristianismo, embora tenha havido polêmicas e diálogos ao longo da Idade Média, com livros como o Toledot Yeshu (História de Jesus) e muitos debates públicos, ainda é um campo que carece de muita pesquisa. Idel admite que não pode responder de forma simples. Mas fica claro que, em sua visão, as influências cristãs são bem menores do que as influências filosóficas gregas mediadas pelo mundo árabe.
Voltando a Maimônides: seus escritos, e os de seus discípulos, tradutores e comentadores, geraram uma reação negativa que, para Idel, foi o motor da Cabalá. Os cabalistas pegaram elementos que já existiam no judaísmo, toda a tradição sobre os salões celestiais, anjos, nomes divinos, e os colocaram no centro, criando uma alternativa. No início, a Cabalá era um movimento modesto, esotérico, restrito a poucos. Mas lentamente a elite judaica foi se contaminando por ela. Nahmânides (Ramban), Rabenu Bahya, Joseph Gikatilia, todos eram cabalistas. Até o grande Yosef Caro, autor do Shulchan Arukh, era um cabalista. Idel lembra com humor suas discussões com o professor Leibowitz, que se opunha à Cabalá. Idel perguntava: o que fazer com essa lista de gigantes da Halachá que eram cabalistas? Leibowitz não podia negar publicamente que eles o eram. Então a Cabalá penetrou no mainstream de forma fortíssima, até o rabino Kook. Mas aí veio o Iluminismo (Haskalah). Os judeus europeus encontraram o mundo europeu, que era um mundo filosófico grego com roupagem alemã. Os maskilim (iluministas judeus) eram, em sua maioria, maimonistas. Salomon Maimon, por exemplo, mudou seu nome para Maimon em homenagem a Maimônides, algo impressionante, pois ele era asquenazita. Por quê? Porque a visão de mundo de Maimônides era mais compatível com Kant do que a Cabalá. Mendelssohn também escreveu comentários ao Guia dos Perplexos. E a Cabala começou a perder importância na Europa Central.
E o hassidismo? Idel o vê como uma continuação da Cabalá, com muitas mudanças, claro. Uma continuação da unificação que existia em Safed, combinada com muito da magia prática que já circulava entre os judeus asquenazitas, aquela magia mais popular, que nunca desapareceu. O hassidismo não se baseia tanto em debates filosóficos; ele constrói uma sociedade à parte, reforçando os elementos judaicos existentes por meio da emoção, da participação coletiva e de muitas vozes. Mesmo quando responde a críticas externas, como o próprio Rabi Nachman de Breslov, que teve que lidar com os maskilim em Uman, não é um movimento construído sobre polêmicas, mas sim sobre fortalecimento interno.
Olhando para o presente, Idel observa o que chama de "mito da Torá". O mundo rabínico inventou o mito de que a Torá existia antes da criação do mundo, algo que não está na própria Torá. Hoje, esse mito domina as yeshivot. O mito da eleição de Israel sempre existiu e permanece. O mito da escolha da terra, por outro lado, renasceu com o sionismo, antes do sionismo, não estava no centro. E a prova de que todos esses elementos ainda estão vivos é que podemos olhar para o Knesset, o parlamento israelense, e ver facções que querem o estudo da Torá, facções que querem a eleição de Israel, facções que querem a Terra de Israel e todos estão ali, convivendo (ou disputando) no mesmo espaço. O judaísmo, portanto, é um processo que muda continuamente. Chegamos ao ponto em que, na América, o judaísmo conservador e reformista se desenvolveram por atrito com o mundo externo e pela vontade de fazer parte dele. E esse espectro todo chegou a Israel. Hoje, temos no país cabalistas, hassidim, halachistas, todo o espectro se reunindo em um só território.
Uma pergunta crucial: quando surgiu o termo "judeu" como autodesignação? Idel aponta o livro de Ester: "Mordechai, o judeu". Antes disso, éramos "filhos de Israel" ou "hebreus". Em Ester, encontramos pela primeira vez o termo ligado a uma pessoa com clara pertença étnica. Depois, a palavra se espalhou. Sobre o significado exato de "judaísmo", há hoje vários livros novos escritos por professores como Boyarin e Daniel Boyarin, um vindo do mundo conservador, outro do mundo ortodoxo, cada um com interpretações completamente diferentes. Para alguns, o judaísmo seria apenas as mitsvot, e a própria palavra "judaísmo" teria sido tomada de empréstimo do cristianismo, que precisava definir uma identidade religiosa. Idel não concorda, mas reconhece que as pessoas buscam definições que façam sentido para suas vidas, para suas escolhas.
A pergunta inevitável: a diáspora nos influenciou a ponto de definirmos a nós mesmos primariamente através da religião? Outros povos se definem de outras formas, por território, por língua, por origem geográfica. Ucranianos e russos, por exemplo, estão redesenhando suas identidades na guerra atual, na fronteira. Os judeus não tinham território. Agora, com Israel, surge a identidade "israelense", pessoas que nasceram no país ou que escolhem viver ali. Essa identidade, para muitos, não é necessariamente judaica no sentido religioso, mas é uma moldura significativa. As pessoas procuram uma moldura que lhes permita se identificar e fazer escolhas. Há quem queira ser judeu sem dúvidas, como Boyarin, e há quem redefina tudo.
Para o futuro, Idel acredita que as muitas definições que já existem continuarão. Será difícil retornar a uma definição única e consensual. A grande questão é: como viver junto com definições tão diferentes? Esse problema existe em Israel e fora. No entanto, quando a pressão externa aumenta, como o recente aumento do antissemitismo na América, de repente todos se tornam judeus. Pessoas que nunca haviam frequentado espaços judaicos aparecem, buscando uma identidade. O já citado Sartre dizia que o judeu é definido pelo olhar de fora. Quanto maior a pressão, mais as identidades judaicas se aproximam umas das outras. É essa dinâmica paradoxal que mantém o judaísmo vivo: um eterno movimento entre a fragmentação interna e a unificação provocada pelo mundo exterior. O professor Moshe Idel, como todo bom professor, nos deixa mais perguntas do que respostas.
Recomendado para a Classe nº 1 e 2 do Curso de Cabalá